Lições de um Haitiano


Vivendo e aprendendo. Ontem, tive a oportunidade de ser tocado por uma lição que recebi. Nós, brasileiros, precisamos muito deste aprendizado - já que nos acostumamos a vê-los transitando pela cidade, nas esquinas vendendo óculos, relógios, e também trabalhando em postos de gasolina. Povo trabalhador este! É muito fácil identificá-los no meio da multidão. E aqui na zona norte tem uma pequena colônia deles. Estou falando dos haitianos. Inicialmente, existia uma apreensão em recebê-los, muito preconceito e uma boa dose de racismo também. Mas o tempo tratou de mostrar a índole deste povo. E digo isso, com conhecimento de causa, raríssimos são os que se metem em problemas, roubos, furtos ou consumo de drogas. São, na sua grande maioria trabalhadores e crentes, é muito comum aos domingos vê-los andando em grupos indo para a igreja com uma bíblia na mão.
Era passado do meio dia, estava atendendo no plantão da DP, e adentra um deles, aguardou sua vez, e ao se dirigir a mim, pedia por “trabalho, serviço. Trabalho, serviço”. Pensei que estive equivocado, pois teria confundido a delegacia com alguma empresa transportadora do Porto Seco. Disse que não tinha serviço ali, mas ele gesticulava e insistia em sua linguagem, mesclada com francês e um português embrulhado: “Trabalho, serviço. Trabalho, serviço”. Logo brotou uma lágrima, seguida de outra, molhando o rosto negro daquele jovem estrangeiro. Embora, eu não conseguisse entende-lo muito bem no que me falava, conseguia entender a sua dor e aflição. Achei que estivesse com fome, e me propus a lhe dar um prato de comida. Ele irredutível, não aceitava a comida, embora vendo claramente que estava com fome. E mais uma vez ele insistia: “trabalho, serviço. Trabalho, serviço”. De repente, aquele infrutífero dialogo, foi interrompido por um senhor que estava aguardando e falava francês e conhecia um pouco da cultura Haitiana. Falaram entre si, e este senhor acabou "servindo" de intérprete do haitiano e explicou que aquele estrangeiro estava com muita fome, mas que em sua terra era ensinado desde de pequeno, que o homem é digno de comer, quando trabalha. Por isso, não aceitava aquele prato gratuito de comida, já que não tinha feito nada para recebê-lo. Não tive dúvidas, havia ali uma vassoura, que de pronto coloquei em sua mão e lhe mostrei duas salas pequenas para limpar. Enquanto ele limpava fui providenciar a sua refeição, já que aquele prato era para o meu consumo e, ele parecia estar com bem mais fome do que eu. Após o trabalho caprichoso do jovem, lhe entreguei o prato. Foi lindo ver seus olhos brilharem ao receber aquela comida. Desta cena e lição eu não me esquecerei tão cedo. Fico pensando quanta gente nos presídios comendo e bebendo, custando um dinheirão e não produzindo nada. Digo, nada de útil à sociedade, muito pelo contrário! Precisamos ter um olhar mais atento para as pessoas e nos despir de todo o preconceito que, às vezes, nos cega. Pense nisso!

Cláudio Conceição
Inspetor e vereador

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18 abr 2017


Por Cláudio Conceição
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